A Century Fox faz jus ao sucesso mundial do banda Queen e entrega um filme tão empolgante quanto a carreira de Freddie Mercury

Guilherme Reis Mantovani

É muito difícil a cinebiografia de uma das bandas mais icônicas e revolucionárias da história do rock’n roll ser ruim. E, para o alívio dos fãs de Queen e dos amantes de cinema, “ruim” é um adjetivo que felizmente passa longe de descrever Bohemian Raphsody.

Saturado de polêmicas durante praticamente toda a sua produção – sobretudo em relação ao diretor Bryan Singer, que apesar de ter sido creditado pela direção do filme, foi afastado na reta final das gravações sob acusação de abuso sexual, dando lugar a Dexter Fletcher –, Bohemian Raphsody retrata quinze anos da trajetória musical do Queen através da perspectiva de seu membro mais excêntrico, o vocalista (e para muitos, líder) da banda, Freddie Mercury.

Encontrar o tom ideal para a representação do artista, por sinal, era um dos maiores desafios que o filme teria de enfrentar. E a interpretação de Rami Malek excede as expectativas: o ator incorpora com brilhantismo os trejeitos e expressões de Mercury, principalmente durante as apresentações musicais. O figurino e os cuidados da produção complementam a excelente atuação, seja através das vestimentas extravagantes da década de 70 e 80 usadas pelo cantor, até a prótese dentária que salienta os dentes de Malek, deixando-o fisicamente parecido com Freddie Mercury mesmo nos detalhes.

Mas o ponto alto de Bohemian Raphsody, como não podia deixar de ser, são as cenas em que o público se torna plateia, e é presenteado com as magníficas exibições das canções que tornaram o Queen mundialmente conhecido. As representações dos shows empolgam e praticamente nos transportam para os anos 70, no auge da banda; os recortes de clips, por sua vez, trazem um apreciativo teor nostálgico ao filme.

Foto: Divulgação/Century Fox

Aliás, os fãs podem ficar tranquilos, porque todos os clássicos da banda marcam presença no longa – e as canções em si servem como força motor do enredo, seja para realmente ajudar a contar a história, como é o caso da concepção da música título, ou para servir como contexto simbólico de determinada cena. É emocionante, por exemplo, o momento em que Mercury recebe uma notícia aterradora que traria uma enorme carga dramática para sua vida (provavelmente vocês já sabem de qual notícia estou falando) ao som da comovente “Who Wants To Live Forever?”. Assim como o diálogo entre Mercury e sua amada Mary Austin (Lucy Boynton) ao fundo musical de “Love of my life”, principalmente após revelada a informação de que a letra fora composta em homenagem a Mary.

E
esta relação entre Freddie e Mary é justamente um dos aspectos de maior
destaque na trama. Os momentos de Mercury com a esposa são aqueles em que sua
humanidade mais é evidenciada; seus temores, seus anseios e seus reais
sentimentos – recordando-nos de que o badalado artista esteve sujeito a falhas
e a conflitos emocionais como eu ou você estamos rotineiramente. Contudo, esta
singela e necessária exposição não é reproduzida quando o assunto é a relação
de Freddie com o restante da banda…

… Mas não se engane: a atuação dos outros membros do Queen é igualmente convincente e satisfatória. O problema é que, próximo a eles, Freddie revela-se quase como uma figura mitológica, convencido de si e sem abertura para falhas, o que afasta um pouco sua citada humanidade, tornando-o menos crível para o espectador. Bohemian Raphsody praticamente não se demora em mostrar os perrengues que a banda teve de enfrentar para atingir o sucesso que a consolidou na musicalidade. O resultado é que, com poucos minutos de projeção, já vemos o Queen estourando no mundo todo, sendo que seria ainda mais valoroso reconhecer, pouco a pouco, o árduo trabalho criativo de seus membros. Contudo, esse apontamento crítico pode ser relevado e até deixado de lado, se levarmos em consideração que o filme é, mais do que qualquer outra coisa, uma homenagem à banda – a comprovação disso é a licença poética adotada pelos produtores na alteração da cronologia de alguns fatos para tornar a experiência cinematográfica ainda mais épica.

Bohemian Raphsody não é uma obra prima da sétima arte, considerando o fato de ser muito cíclico durante o segundo ato, além de recursos discutíveis de roteiro; também não é uma experiência documental: você sairá do cinema conhecendo pouco mais do que as informações já generalizadamente difundidas sobre a figura pública (e por que não histórica?) de Freddie Mercury e sobre o Queen. Contudo, é um filme plenamente satisfatório que, acima de tudo, é capaz de empolgar como poucas cinebiografias conseguiram. A decisão de encerrar o longa com o famoso show Live Aid de 1985 (considerado por muitos a melhor apresentação da banda em toda a sua trajetória) quase que reproduzido na íntegra é um acerto explosivo. A sequência fiel e rica em detalhes de quase 20 minutos é capaz de levar alguns fãs a cantarem na sala de cinema (isso aconteceu na minha sessão, de verdade) quase como se estivessem de corpo e alma no show…

Imagem do show original em 1985. Foto: attitude.co.uk 

E se conectar desta forma já é um excelente argumento para afirmar que Bohemian Raphsody conseguiu passar toda a emoção, talento e performance musical de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos com êxito.

 

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1 Comments

  1. Raul Galhego da Silva 13th novembro 2018

    Um dos melhores filmes biográficos e musicais que vi! Poucos trouxeram tanta imersão e nos proporcionaram uma empatia com o protagonista tão grande quanto a que esse nos fez sentir! E realmente empolgante, fui um dos que cantou junto com o longa na sala do cinema! Haha! Excelente crítica para um excelente filme! Parabéns pelo texto!!!