Os deslizes no roteiro não comprometem a experiência visualmente linda e  emocionante que é este segundo filme protagonizado por Newt Scamander

Guilherme Reis Mantovani

Sabe quando você está na sala assistindo a um filme enquanto devora um lanche, e alguém entra abruptamente no cômodo, curte algumas cenas em silêncio, para então soltar aquela famosa pergunta: “Esse filme é sobre o que?”

Se nesta situação hipotética o filme em tela é Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, eu teria dificuldade para responder à pergunta. A continuação da saga derivada do universo mágico de Harry Potter encontra problemas em estabelecer uma linearidade narrativa, ora dando atenção às criaturas que dão título ao longa, ora oferecendo espaço para o conflito proeminente entre Alvo Dumbledore (Jude Law) e Gerardo Grindelwald (Johnny Depp), ora focando suas atenções no conflito pessoal de Credence (Ezra Miller), com uma ligeira dificuldade em estabelecer uma prioridade. Ademais, o longa aborda subtramas em excesso, com diversos personagens recém introduzidos com pouco desenvolvimento – à exceção de Leta Lestrange (Zoë Kravitz) – e algumas idas e vindas do enredo, como o caso da complicada origem do citado Credence, que tornam o segundo ato inchado em informações ao público.

Algumas contradições detalhistas do filme em relação a saga Harry Potter também incomodou os fãs mais assíduos: seria impossível, por exemplo, Minerva McGonagall estar lecionando em Hogwarts no ano em que é retratada sua aparição, visto que ela ingressara na escola como professora em meados da década de 50; ou mesmo Dumbledore ensinando Defesa Contra as Artes das Trevas ao invés de Transfiguração, como já havia sido relatado ser sua matéria ao longo dos sete livros da saga.

Isto posto, vale ressaltar que o ponto negativo dos dois parágrafos acima é que se tratam da enumeração de problemas no filme, certo? Já o ponto positivo é que eles estão ilhados neste texto. Pois Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald acerta em todos os outros quesitos.

As atuações, por exemplo, são riquíssimas: Eddie Redmayne está mais uma vez perfeito no papel do protagonista Newt Scamander com seu olhar baixo e fugaz, além de uma postura contida, que denota uma dificuldade social de se conectar com outras pessoas. Suas expressões físicas ainda transmitem uma forte noção de inocência e introspectividade, exceto quando está na presença dos animais: aqui sua essência desabrocha e vemos, em seu brilho no olhar e em suas resoluções experientes ao lidar com eles aspectos dignos de alguém que está fazendo o que ama.

Foto: Divulgação/Warner Bros.

A despeito das graves acusações pessoais, Johnny Depp está excelente no papel do vilão Grindelwald. Expressando uma ameaça sutil em todas as suas aparições, Depp consegue incorporar o temível bruxo em seus discursos políticos, que vão de encontro com manifestações fascistas (vale ressaltar que o filme é ambientalizado no cenário europeu entre guerras mundiais). Assim como nas conjecturas fascistas da década de 30, as palavras de Grindelwald vêm disfarçadas de um objetivo final “nobre”: no caso, a necessidade dos bruxos – detentores de capacidades superiores aos trouxas, segundo ele – de se sobreporem, expurgarem de vez a ameaça que os não bruxos representam e estabelecerem uma sociedade “limpa” e ordenada. Isso te soa familiar?

Os discursos de Grindelwald atingem as inseguranças e as vulnerabilidades das pessoas: e é isso o que os tornam tão atrativos e, por consequência, perigosos. Uma das melhores cenas do filme é quando vemos os personagens tentados pelas palavras do vilão; e alguns deles de fato optam por segui-lo. A dor que estas decisões causam soa equiparável a dor da morte: ver uma pessoa querida seguindo um caminho que você não pode seguir é de partir o coração. Porque perder uma pessoa para a morte é inevitável. Perdê-la para uma ideia egoísta e tenebrosa, é causticante – pois, neste caso, a pessoa escolheu te deixar. Por isso a carga dramática na relação entre Jacob (Dan Fogler) e Quennie (Alison Sudol) é tão intensa nesta cena.

Foto: Divulgação/Warner Bros.

Outro ator que cumpre com perfeição o seu papel é Jude Law na figura de Alvo Dumbledore. Os fãs que estavam preocupados com a versão mais nova do eterno diretor de Hogwarts podem ficar tranquilos: Law consegue transmitir muito bem a serenidade sábia de Dumbledore, aliando à soberania respeitável que ele representa. Note, por exemplo, quando membros do Ministério da Magia adentram sua sala de aula e ordenam que os alunos se retirem: mesmo diante de tamanha autoridade, os estudantes só deixam o cômodo quando Dumbledore, calmamente, assim o pede.

É notável também como Dumbledore, ao contrário de Grindelwald, muitas vezes deixa toda a sua capacidade mágica de lado para lidar com as pessoas usando uma habilidade que seu rival desconhece. Observe, por exemplo, como ele convence Leta Lestrange do que é certo a se fazer em uma conversa franca, fazendo jus à sua emocionante frase em Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2:

“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia”.

E é tocante ouvir de um bruxo tão poderoso que o nosso dom mais valioso reside em nossa capacidade de transformar a vida de alguém usando apenas… palavras. 

Além disso, em dado momento do filme, Dumbledore ainda segreda para Newt: “Sabe o que mais me admira em você? Você não está atrás de poder. Só pergunta se uma coisa é certa”. Ao passo que, no livro derradeiro da saga Harry Potter, afirma para Harry em seu reencontro em King’s Cross: “É uma coisa, curiosa, Harry, mas talvez os que têm maior talento para o poder sejam os que nunca o buscaram. Pessoas, como você, a quem empurram a liderança e que aceitam o manto do poder por que devem, e descobrem, para sua surpresa, que lhes cai bem”

… Estas duas passagens exemplificam como o Dumbledore de Animais Fantásticos faz jus ao Dumbledore de Harry Potter em sua essência, e ainda denotam o conflito interno do personagem à respeito do poder; conflito este que foi, ao lado de sua paixão, o âmago do despertar da rivalidade entre ele e Grindelwald.

Foto: Divulgação/Warner Bros.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald também proporciona uma experiência empolgante quando o assunto são os efeitos especiais: a começar pelo riquíssimo design de produção, passando pela linda estilização das particularidades de cada animal apresentado no filme (aquele “leão” brilhante que adora o bichinho de pelúcia é, de longe, o meu preferido) e na concepção dos cenários: as diferentes características que dão vida aos Ministérios estadunidense, britânico e francês são de cair o queixo. E, como não podia deixar de ser, Hogwarts está belíssima em seu visual estoneante; e seu interior – o Grande Salão, com suas quatro mesas e suas velas flutuantes, por exemplo – está aconchegante como sempre. É quase impossível não se emocionar ao ver o castelo, lar de muitos de nossos sonhos quando crianças, erguer-se imponentemente uma vez mais na tela do cinema ao som da nostálgica “Hedwig’s Theme”.

Foto: Reprodução/Warner Bros.

É inevitável salientar que a maior qualidade de Animais Fantásticos 2 é um conjunto de todos os seus aspectos positivos (e o motivo pelo qual Harry Potter encantou uma geração inteira): sua inventividade. O universo mágico concebido por J.K. Rowling continua fascinando por sua criatividade. E, se corrigir precalços de roteiro para os próximos filmes, tem tudo para respaldar a saudade dos fãs do bruxo com uma cicatriz em forma de raio, que vivia num armário sob a escada.

 

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1 Comments

  1. gabrielfiora 21st novembro 2018

    Crítica muito boa, filme ruim! Harry Potter sem Harry Potter é golpe