Guilherme Reis Mantovani

Por muito tempo, Aquaman foi um personagem da DC Comics sujeito ao deboche de apreciadores de quadrinhos e, sobretudo, de desenhos animados, nos quais o herói dividia as atenções com Batman, Super Homem, Mulher Maravilha e outros personagens adorados deste universo. Esta impressão, no entanto, se não foi erradicada, foi expressivamente amenizada neste excelente longa de 2018.

Aquaman tinha a difícil missão de atender às enormes esperanças depositadas em uma repercussão positiva da DC junto aos fãs. O fracasso retumbante de filmes cercados de expectativas em seus respectivos lançamentos como o péssimo Esquadrão Suicida (2016) e o esquecível Liga da Justiça (2017) praticamente suplantaram os bons Mulher Maravilha (2017), Homem de Aço (2013) e o mediano Batman V.S. Superman (2016) aos olhos do público geral…

… E o filme do herói outrora ignorado foi aquele que, ironicamente, revitalizou o crédito da DC ao apresentar um visual ambicioso, uma narrativa articulada e personagens interessantes.

Dirigido pelo competente James Wan – responsável por revolucionar o gênero de terror com ótimos títulos, tais quais Invocação do Mal (2013) e Jogos Mortais (2005) – a projeção narra a história de Arthur Cury (Jason Momoa), produto de amor de dois habitantes de mundos diferentes: um faroleiro (Temuera Morrison) e a rainha de Atlântida (Nicole Kidman). Após ser treinado e aconselhado por Vulko (Willem Dafoe), Arthur assume o compromisso de lutar contra o irmão Orm (Patrick Wilson) pelo trono de Atlântida e o título de Mestre dos Oceanos a fim de impedir uma guerra entre os seres subaquáticos e os humanos, ou “povo da superfície”.

Foto: Divulgação/Warner Bros

O elenco reitera sua competência ao entregar atuações bem alinhadas: Momoa, mesmo em sua inflexibilidade na alternância de emoções de seus personagens – o ator se resume a caras e bocas pouco variadas –, vive um Aquaman mais rebelde e orgulhoso de seus poderes, casando perfeitamente com a proposta do longa. Seu par romântico, Mera (Amber Heard), incorpora uma personagem carismática e obstinada, embora a relação com o protagonista careça de química… Sabe aquele clichê “do casal que não para de discutir, mas no fundo se ama”? Pois é…

Dafoe está excelente como Vulko, exibindo paciência e sabedoria em suas falas experientes; Kidman concede um conflito emocional admirável a Atlanna (além de protagonizar incríveis cenas de ação, como aquela vista logo nos primeiros minutos da projeção) e Wilson dá vida a um vilão imponente, com objetivos justificáveis – o rancor contra o “povo da superfície”, por sua arrogância na poluição dos mares e oceanos, por exemplo –, o que o torna mais verossímil em suas ambições maléficas.

Contudo, a principal qualidade de Aquaman é o maravilhoso visual da produção. A linda estética dos cenários subaquáticos realmente nos faz acreditar que existem diferentes populações autossuficientes vivendo harmoniosamente com as espécies naturais das profundezas dos oceanos – e é admirável notar o cuidado da produção em conceder características peculiares a cada uma, diferenciando-as umas das outras. Além disso, a beleza visual também se estende para sequências inteiras de cenas, como aquela envolvendo um sinalizador e criaturas agressivas do fundo do mar ou mesmo a batalha decisiva no último ato do longa.

Foto: Reprodução/Warner Bros

A direção do já citado talentoso James Wan é eficiente ao mostrar a transição de cenas entre passado e presente de maneira fluída, e igualmente competente nas cenas de ação, sobretudo nas que ocorrem debaixo d’água, respeitando as condições físicas de um embate neste ambiente. Outro aspecto técnico de destaque em Aquaman é a belíssima trilha sonora, que varia entre faixas e canções, e se faz notar em momentos chave do filme.

Os defeitos de Aquaman são mínimos se comparados à qualidade final do filme, mas eles estão lá, e chegam a incomodar: desde as explosões interrompendo diálogos repetidamente (eu contei pelo menos três vezes), tornando este recurso chato e previsível; até o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), cuja presença neste filme poderia até ser descartável, já que, naturalmente, é acobertado pelo vilão central, o Rei Orm (apesar de a cena pós-creditos oferecer uma dica de que Arraia Negra retornará para ameaçar Aquaman e assumirá um papel muito mais relevante).

No filme, a habilidade de Aquaman em falar com peixes – por muito tempo alvo de gozação, afinal, “que personagem é esse cujo poder é o mero contato com peixes”? – é justamente aquela que o torna especial e o ajuda definitivamente a se consolidar não apenas como rei, mas como herói. E é exatamente isso que acontece atrás das câmeras: o personagem mais subestimado da DC foi aquele que mostrou que a empresa pode extrair muito mais de suas criações e entregar projetos convincentes e bem estruturados num futuro próximo.

 

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1 Comments

  1. Raul Galhego 26th dezembro 2018

    Excelente crítica para um excelente filme!! Um dos poucos desse novo universo cinematográfico da DC que valeu a pena assistir!! E ótimo texto, como sempre!! Keep the good work!! XD